domingo, 24 de fevereiro de 2013

O Texto de Opinião no Ensino Fundamental



          O TEXTO DE OPINIÃO NO ENSINO FUNDAMENTAL
                                                                (Por Vania L.Dutra -UERJ)

Produção de Textos

Os Diferentes Gêneros Textuais

Ao se propor uma atividade de produção textual, é preciso que se dê à escrita uma finalidade clara e, se possível, que se estimule sua circulação fora do âmbito aluno (produtor) / professor (receptor). Normalmente, o leitor das produções dos alunos na escola é somente o professor. A tarefa de escrita é feita na escola e para a escola, e o aluno se adapta a essa situação, buscando construir um texto padronizado (“padrão escola”) que atenda à expectativa do avaliador para obter uma nota. Esse fato faz com que os alunos não arrisquem, não ousem na construção de seus textos e contribui para que esses textos que se produzem na escola sejam muito parecidos entre si (reprodução).
É importante, então, que as condições de produção estejam muito claras para o aluno a cada proposta de trabalho apresentada pelo professor.

Condições de produção de textos na escola
Para escrever seus textos, o aluno precisa saber:· qual a finalidade da escrita (entreter, sensibilizar os leitores; informar os leitores sobre algum tema; convencer os leitores de alguma coisa);· qual (is) o(s) provável (eis) receptor (es) para seu texto (professor e colegas da turma; outros professores e colegas de outras turmas; comunidade escolar de uma forma geral; família; leitores de um determinado jornal ou revista aonde o texto venha a ser publicado);· qual o gênero textual em que o texto se materializará – o que determinará o suporte em que circulará (jornal, revista, cartaz, folheto, livro etc.), sua forma (superestrutura, silhueta) e sua estrutura linguística (sequências textuais, variedade linguística, estruturas gramaticais e seleção vocabular específicas).

Gêneros textuais 

Conforme Marcuschi (2002: 22), a expressão gêneros textuais referem
aos textos materializados que encontramos em nossa vida diária e que apresentam características sócio comunicativas definidas por conteúdos, propriedades funcionais, estilo e composição característica. Se os tipos textuais são apenas meia dúzia, os gêneros são inúmeros. Alguns exemplos de gêneros textuais seriam: telefonema, sermão, carta comercial, carta pessoal, romance, bilhete, reportagem jornalística, aula expositiva, reunião de condomínio, notícia jornalística, horóscopo, receita culinária, bula de remédio, lista de compras, cardápio de restaurante, instruções de uso, outdoor, inquérito policial, resenha, edital de concurso, piada, conversação espontânea, conferência, carta eletrônica, bate-papo por computador, aulas virtuais e assim por diante.
Os gêneros textuais são fenômenos históricos profundamente vinculados à vida cultural e social. São manifestações linguísticas concretas, constituindo textos empiricamente realizados que cumprem funções diversas em diferentes situações comunicativas.
É importante ressaltar que, nos diversos gêneros, realizam-se diferentes modos de organização do discurso (tipos textuais, conforme Marcuschi). É bastante comum que, no mesmo gênero textual, realizem-se dois ou mais modos, havendo sempre a predominância de um sobre os demais. Um texto é, em geral, heterogêneo em relação aos modos de organização do discurso, mas caracteriza-se como descritivo, narrativo, argumentativo etc. de acordo com a sequência que nele prevalecer. O modo de organização do discurso é caracterizado por um conjunto de traços linguísticos que formam uma sequência, não um texto. Assim, podem fazer parte da constituição de um mesmo texto sequências textuais (modos de organização do discurso) diferentes, mas relacionadas entre si.
Como já mencionado, os modos de organização do discurso fundam-se em critérios intratextuais (linguísticos e formais). Os gêneros, por sua vez, em critérios extratextuais (sócio comunicativos e discursivos).

Os chamados tipos textuais (Charaudeau, 1992) ou domínios discursivos (Marcuschi, 2003) geram inúmeros gêneros textuais: o tipo epistolar, por exemplo, geram cartas, bilhetes, e-mails etc. (gêneros). Considerando-se a especificidade de cada situação comunicativa, entretanto, e com base nos critérios de ação prática, circulação sócio histórica, funcionalidade, conteúdo temático, estilo, um gênero pode apresentar, e geralmente apresenta, subgêneros. No caso da carta (gênero), por exemplo, temos como subgêneros: a carta pessoal, a carta comercial, a carta de recomendação, entre outras.
Os vários gêneros textuais apresentam características formais e linguísticas muito distintas. Escrever um conto é muito diferente de escrever uma reportagem ou um texto de opinião, por exemplo.
Cada um dos gêneros tem uma finalidade bastante específica, por isso apresenta características muito particulares. Assim, é preciso que o professor, em cada um dos casos, oriente diferentemente o aluno, para que o texto produzido seja satisfatório.
O Texto de Opinião
É fato que o texto de opinião não é trabalhado com frequência no ensino fundamental. A produção desse gênero exige que os alunos assumam um posicionamento e argumentem. Talvez por isso haja uma tendência de se considerar que, nas séries mais baixas, por serem mais jovens, os alunos não sejam capazes de produzir esse tipo de texto.
Contudo, nas interações comunicativas, desde que começam a falar, as crianças argumentam. Buscam convencer seus interlocutores (pais, irmãos, amiguinhos, professores), tentando alcançar seus objetivos. Isso se dá antes mesmo de aprenderem a narrar, embora sejam narrativos os textos mais trabalhados no ensino fundamental.
Aprender a debater oralmente é muito importante para as atividades desenvolvidas na escola e fora dela. Mas é necessário que os alunos aprendam também a debater, a opinar por escrito.
Assim como no caso dos outros gêneros textuais, escrever um texto de opinião, argumentando, de forma clara, lógica e ordenada, é uma habilidade que se aprende. Cabe, então, à escola orientar seu aluno em relação aos aspectos específicos desse gênero, auxiliando-o na organização do que, de certa forma, ele já é capaz de fazer como falante da língua portuguesa.
Para se chegar ao texto de opinião escrito, é necessário que se construa, antes, o trabalho na oralidade e que se leiam muitos textos de opinião.

Produção Oral
As crianças e os adolescentes, na escola e fora dela, vivem discutindo coisas entre si. E, muitas vezes, essas são discussões desordenadas, que nem sempre têm resultado positivo. É muito importante que os alunos percebam a necessidade da argumentação para debater ideias com as quais não concordem e para convencer o outro de sua opinião.
É a partir da intervenção do professor que os alunos aprenderão a debater assuntos ordenadamente, a respeitar seu interlocutor, a dar sua opinião e sustentá-la sempre que for necessário. Esse trabalho pode (e deve) ser desenvolvido desde o início da escolarização.

Análise de Textos Escritos
É necessário que os alunos convivam com o texto de opinião escrito, analisando seu conteúdo e suas estratégias de estruturação. Um importante corpus desse gênero para leitura na escola está nos jornais e nas revistas: são cartas e e-mails de leitores que opinam sobre tema(s) comum (ns), geralmente problemas ou acontecimentos ocorridos recentemente, que afetam a vida de seu país, seu estado, sua cidade, seu bairro.
Ler textos de opinião, escritos por diferentes autores, sobre um mesmo assunto, possibilita ao aluno conhecer diferentes pontos de vista e suas respectivas fundamentações. É preciso guiar a leitura do aluno para que ele perceba qual é a questão abordada (fato), a opinião do autor do texto (tese) e sua justificativa (argumentos), elementos fundamentais na estruturação desse gênero.
A produção escrita do texto de opinião pode se dar nas séries iniciais, com o texto coletivo, e nas demais séries, em grupos e individualmente, com um aprofundamento cada vez maior conforme a série e a maturidade dos alunos.
Objetivo, Conteúdo e Estruturação do Texto de Opinião

Objetivo
Quando escrevemos um texto de opinião, nosso objetivo é o de convencer. Apresentamos nossa opinião em relação a determinado assunto e desejamos convencer nosso leitor a assumir o mesmo ponto de vista.

Conteúdo
Para que se possa alcançar com êxito esse objetivo, é preciso que o aluno conheça muito bem o tema de que irá tratar. O autor do texto precisa ter dados e informações que justifiquem sua opinião, que possibilitem a ele construir bons argumentos, a favor ou contra o tema abordado.
É importante, portanto, que se levem para a sala de aula textos sobre o assunto (informativos, literários, da mídia etc.) e que se promova, então, um amplo debate. Assim, os alunos podem contribuir com as informações que têm sobre o tema e podem exercitar a prática da argumentação oral, habilidade muito exigida hoje na vida em sociedade e na escola, especificamente.
A escrita de um texto de opinião pressupõe, geralmente, as seguintes etapas de trabalho (não necessariamente nesta ordem):
· tomada de posição em relação ao tema (contra ou a favor);
· justificativa da posição assumida, com base em argumentos;
· antecipação de possíveis argumentos contrários ao seu ponto de vista, contestando-os;
· conclusão do texto, reforçando-se a posição assumida.
Levantados esses pontos, é preciso, também, que se observem dois aspectos fundamentais para a construção da coerência do texto:
· organização dos argumentos;
· ligação entre as diferentes partes do texto (frases, parágrafos; introdução, desenvolvimento e conclusão).
Estrutura linguística
A questão da articulação
Além de todos os aspectos gramaticais relevantes para a escrita de qualquer gênero textual, no texto de opinião é extremamente importante à questão da articulação. Por não se caracterizar como uma lista de argumentos, esse texto pressupõe uma ligação entre suas diferentes partes, encaminhando-o a uma conclusão.
Eis algumas palavras e expressões que cumprem essa função, contribuindo para a construção da coerência textual:
Palavras ou expressões que:
Exemplos:
anunciam a posição do autor diante do que está sendo enunciado
“na minha opinião”, “penso que”, “acho que”, “pessoalmente”, “no meu ponto de vista” , “indubitavelmente”, ”realmente”, “com certeza”, “parece-me que”, “provavelmente”, “infelizmente”;
introduzem argumentos, estabelecendo relações lógicas entre as partes dos enunciados (orações, períodos)
“porque”, “pois”, “por isso”, “embora”, “apesar de”, “para”, “a fim de”, “logo”, “então”;
apresentam o fechamento, a conclusão do texto
“consequentemente”, “por conseguinte”, “assim”, “então”, “desse modo”;
articulam o texto como um todo (grupos de períodos, parágrafos, partes maiores do texto)
“em primeiro lugar (...) em segundo lugar (...) finalmente”,
“por um lado (...) por outro lado”

                                                       A questão da enunciação
Um outro aspecto linguístico de muita relevância na estruturação do texto de opinião é a enunciação (quem fala no texto, como se apresenta).
No primeiro segmento do ensino fundamental e nas séries iniciais do segundo segmento, é mais adequado trabalhar com a 1a pessoa (singular e plural). Os alunos mais jovens têm muita dificuldade em afastar-se do texto que estão produzindo, a fim de imprimir-lhe uma boa dose de objetividade. Opinar é algo pessoal, subjetivo, é estabelecer um juízo de valor acerca de um objeto a partir de parâmetros pessoais, particulares.
Já nas séries finais do segundo segmento do ensino fundamental e no ensino médio, de uma forma geral, os alunos são mais amadurecidos e, por isso, capazes de perceber o efeito diferenciado quando do uso da voz passiva, do sujeito indeterminado, da impessoalidade ou mesmo da terceira pessoa em lugar da primeira. O texto torna-se mais objetivo e direto, se for essa a intenção, e seu autor deixa de tomar para si, individualmente, a responsabilidade pelo que está sendo dito. Ele busca apoio na voz da coletividade ou no argumento de autoridade (Perelman, 1996) para reforçar seus próprios argumentos, sendo mais fácil, assim, conseguir a adesão de seus interlocutores, convencendo-os acerca da ideia que defende.
Talvez por isso seja tão comum o emprego da expressão texto de opinião nos primeiros anos de trabalho com a argumentação na escola. Mais tarde, entretanto, a nomenclatura texto argumentativo assume seu lugar.
                                                        Texto de Opinião – Uma Análise
A análise de textos de opinião, desde cedo, na escola, é muito importante para que os alunos possam se familiarizar com seu objetivo comunicativo e com sua estrutura. O professor exerce papel fundamental nesse empreendimento, guiando a leitura do aluno na análise do conteúdo e das estratégias de estruturação desse gênero.
O texto que ora apresentamos servirá como um exemplo daquilo que se pode abordar, num trabalho de leitura, visando capacitar o aluno para reconhecer, no texto de opinião, tanto a intenção comunicativa de seu autor – expressa no ponto de vista que defende e em sua fundamentação –, quanto os aspectos linguísticos essenciais para sua eficácia comunicativa.
O Brasil é um país privilegiado no que diz respeito à quantidade e à qualidade de suas águas, mas, se não fizermos boas campanhas educativas para a população, logo perderemos esse privilégio.
Em nossa opinião, já manifestada em artigos anteriores, às campanhas são necessárias porque muitas pessoas desperdiçam água lavando calçadas diariamente, não consertando torneiras que vazam e passando muito tempo nos chuveiros.
Nem todos são favoráveis às campanhas educativas. Para alguns economistas, a solução é aumentar o preço da água.
Pensamos que isso seria um verdadeiro absurdo, pois o preço da água brasileira é um dos mais altos do mundo! Por outro lado, mesmo pagando caro, os brasileiros continuam desperdiçando água.
Todos sabemos que seria impossível viver sem água. Então, a solução melhor é fazer campanhas educativas que ajudem a conscientizar a população, mostrando a todos que a água é um recurso que pode se esgotar com o mau uso.
(Adaptado de Antônio Ermínio de Moraes:
Depois da água, por que não o ar? Folha de São Paulo: Opinião – 24/03/02)

                                    Posição do autor em relação ao tema
O autor posiciona-se a favor das campanhas educativas, como se pode perceber no segundo parágrafo, quando escreve: Em nossa opinião, já manifestada em artigos anteriores, às campanhas são necessárias...
                                                         Argumentos
Ele justifica sua posição argumentando que é necessário conscientizar a população, ou seja, fazer as campanhas porque há desperdício de água: muitas pessoas desperdiçam água lavando calçadas diariamente, não consertando torneiras que vazam e passando muito tempo nos chuveiros.

                                 Antecipação e contestação de outros argumentos

No texto, o autor antecipa o argumento de alguns economistas, que dizem estar à solução do problema no aumento do preço da água. Ele ainda contesta esse argumento, dizendo que o preço da água brasileira é um dos mais altos do mundo! e apresentando o fato de que, mesmo pagando caro, os brasileiros continuam desperdiçando água.

                                                            Fechamento do texto 

No último parágrafo do texto, o autor reafirma seu posicionamento inicial a favor das campanhas educativas, retomando o que dissera no primeiro parágrafo: a solução melhor é fazer campanhas educativas que ajudem a conscientizar a população. Ele conclui seu raciocínio com argumentos irrefutáveis, buscando reforçar sua tese de que as campanhas são necessárias: Todos sabemos que seria impossível viver sem água e a água é um recurso que pode se esgotar com o mau uso.
                                                           Articulação do texto

A expressão Em nossa opinião, que introduz o segundo parágrafo estabelecendo um vínculo com o primeiro, anuncia com clareza a posição do autor diante do que se diz em seguida.
As partículas mas, porque, pois, então – primeiro, segundo, quarto e quinto parágrafos respectivamente – articulam os argumentos que introduzem ao que se afirma anteriormente, estabelecendo uma relação lógica entre eles:

MAS (relação de oposição) – O Brasil é um país privilegiado no que diz respeito à quantidade e à qualidade de suas águas,

 MAS (...) logo perderemos esse privilégio

PORQUE (relação de causa) – ...as campanhas são necessárias 

PORQUE muitas pessoas desperdiçam água... 

POIS (relação de explicação) – Pensamos que isso seria um verdadeiro absurdo, 

POIS o preço da água brasileira é um dos mais altos do mundo! 

 ENTÃO (relação de conclusão) – Todos sabemos que seria impossível viver sem água.  

ENTÃO, a solução melhor é fazer campanhas educativas...
Ao mesmo tempo em que cumpre a função de articulador entre dois períodos, o ENTÃO apresenta a conclusão do texto. Esse vocábulo anuncia o fechamento do raciocínio do autor através da retomada de sua tese inicial, reafirmando-a: ...se não fizermos boas campanhas educativas para a população (primeiro parágrafo); ENTÃO, a solução melhor é fazer campanhas educativas que ajudem a conscientizar a população... (último parágrafo).
Há, ainda, nesse texto, uma expressão que atua na organização dos argumentos, ligando partes maiores do texto. O emprego de por outro lado, no quarto parágrafo, faz-nos perceber a relação entre a antecipação do argumento dos economistas (a solução é aumentar o preço da água.), no terceiro parágrafo, e a contestação desse possível argumento pelo autor do texto no quarto parágrafo (Por outro lado, mesmo pagando caro, os brasileiros continuam desperdiçando água.). Entende-se que foi omitida a primeira expressão (por um lado) que se poderia articular a por outro lado. Sua presença não é obrigatória, uma vez que pode ser facilmente recuperada na leitura (elipse).

                                             Enunciação

O texto em questão foi escrito para a seção Opinião da Folha de São Paulo. Por objetivar atingir um público muito heterogêneo – pertencente a classes sociais diferentes e com níveis de escolaridade também diversos – e sensibilizá-lo na tentativa de provocar uma mudança de comportamento, o autor optou por escrever seu texto na primeira pessoa do plural.
Essa opção, além de tornar público o posicionamento pessoal do autor, ainda constrói, na mente dos leitores, a ideia de que há muitas outras pessoas que compartilham dessa mesma opinião (Em nossa opinião..., Pensamos que..., Todos sabemos...) – o que aumenta a força de persuasão de seus argumentos.
Atividades Possíveis para Auxiliar
na Construção do Texto de Opinião Escrito
Muito se pode fazer para levar o aluno a apropriar-se dos recursos para a escrita de textos de opinião. Surpreendemo-nos quando, após o desenvolvimento de um trabalho sistemático de análise e produção, vemos o amadurecimento não só do texto de nossos alunos, mas deles mesmos, que então são capazes de ler criticamente – percebendo, com mais facilidade, os sentidos dos textos – e escrever com mais desenvoltura – colocando no papel, com clareza, sua intenção comunicativa. Isso fica mais claro para nós e, principalmente, para eles quando podemos comparar suas escritas iniciais de textos de opinião com o que estão escrevendo ao final do processo.
Os debates orais são muito importantes não só com os pequenos, que ainda têm muita dificuldade com a escrita, mas em todos os níveis, já que a troca de informações sobre o tema torna mais fácil a decisão sobre o que se vai dizer.
Pode-se propor aos alunos uma questão polêmica, com a qual uns concordarão e outros não, e solicitar deles argumentos que fundamentem sua posição. Depois, podem-se anotar os argumentos contra e a favor no quadro-de-giz, aleatoriamente, solicitando que eles os identifiquem. Estaremos trabalhando com a construção e, ao mesmo tempo, com o reconhecimento de argumentos.
Para a análise inicial de textos de opinião escritos, podem-se selecionar trechos que mostrem claramente os elementos que se quer enfocar. É preciso guiar os alunos no reconhecimento da questão polêmica, da posição do autor do texto e de seus argumentos. O professor pode, também, a partir de determinada tese, formular ele próprio argumentos contra ou a favor, para que o aluno reconheça quem os teria elaborado. Com base no texto aqui analisado, sobre a necessidade de economizar água, poderia o professor listar, por exemplo, estes argumentos:

· Quanto mais cara a água, mais a população economizará.
· É preciso alertar a população para o risco de não haver mais água no futuro.
· Não se pode deixar de lavar calçadas e automóveis, é um caso de higiene.

O aluno, com base nas informações que tem a partir da leitura do texto, reconhece que o primeiro argumento possivelmente foi elaborado pelos economistas; o segundo, pelo autor do texto; e o terceiro, por um representante da população, que não está ainda esclarecido sobre a questão de a água ser um bem esgotável na natureza e sobre as alternativas para se manter o ambiente limpo, embora evitando o desperdício. É o reconhecimento de diferentes vozes dentro do texto.
Em relação à escrita propriamente dita, pode-se propor aos alunos que eles levantem argumentos contra e a favor de uma tese construída pelo professor (construção de argumentos). Pode-se, também, solicitar que os alunos analisem o contexto do interlocutor, imaginando que argumentos ele poderia usar para defender seu ponto de vista. Utilizando esse raciocínio, é possível antecipar possíveis argumentos, para contestá-los (antecipação de argumentos do interlocutor).

Atividades de articulação entre a posição do autor e seu argumento, entre o argumento e a conclusão do argumento auxiliam o aluno a refletir sobre os diferentes elementos de coesão referencial e sequencial que tem a sua disposição e sobre como tirar o melhor proveito deles em favor da eficácia comunicativa.
Revisão do Texto pelos Alunos
Como uma importante etapa da construção do texto escrito, a revisão precisa fazer parte da rotina da sala de aula nas aulas de Língua Portuguesa. É durante esse momento do trabalho que o aluno avalia a pertinência das escolhas que fez tanto no âmbito dos argumentos (textual-discursivo) quanto no dos recursos linguísticos (gramatical).
No início, a revisão terá de ser encaminhada pelo professor, que apontará – e até mesmo marcará –, no texto do aluno, o que precisa ser melhorado. Mais tarde, o próprio aluno já será capaz de dar conta de muitas questões, principalmente se tiver a oportunidade de se distanciar de seu texto, fazendo essa revisão alguns dias depois de sua primeira etapa de escrita.
No ensino fundamental, para que o aluno se sinta mais seguro nessa etapa da escrita e para que não deixe de observar nenhum aspecto relevante durante a revisão do texto, o professor pode, com base no que se construiu como “roteiro” para a escrita do texto de opinião, guiar a autocorreção do aluno observando os seguintes itens, que devem ser disponibilizados na sala de aula:

                                 Aspectos textuais 
  1.  Tomou posição em relação à situação apresentada?
  2.  Introduziu sua opinião com expressões como: “na minha opinião”, “penso que” ?
  3. Considerou o ponto de vista do interlocutor para construir seus argumentos?
  4. Usou expressões organizadoras do texto, como: “primeiramente... em segundo lugar...”?
  5. Utilizou expressões que introduzem argumentos, como: “pois”, “porque”
  6. Usou expressões que introduzem a conclusão, como: “então”, “assim”, “portanto” ?
  7. Finalizou o texto reforçando sua posição?
                  
                                                         Aspectos formais da escrita
  1.  Verificou se há marcas de oralidade e repetições excessivas?
  2. A pontuação está bem colocada?
  3.  Usou letra maiúscula nos nomes próprios, início de parágrafos e após as pontuações?
  4.  Corrigiu os erros de ortografia?
  5. Escreveu com letra legível?
                                                                              
                                                                    Conclusão
Priorizando-se, neste trabalho, o texto de opinião, suas condições de produção e seus aspectos enunciativos, buscou-se apontar um caminho para a transposição didática, demonstrando que é possível desenvolver um trabalho com a produção do texto argumentativo, no Ensino Fundamental, desde as séries iniciais, em que sejam considerados a situação comunicativa, os sujeitos nela envolvidos e os papéis a desempenhar.
Objetiva-se, desse modo, apontar caminhos para que o professor possa criar condições de aprendizagem em que o aluno desenvolva competências para a prática social do discurso. Ele será capaz, então, de perceber que fatores externos à língua precisam ser considerados para que se possa entender plenamente o que por meio dela é dito e que, por si só, seria insuficiente.
Para viabilizar essa proposta, é importante que se considere o gênero textual como o corpus para análise – observando seus aspectos estruturais e linguísticos – e como modelo para a escrita – colocando em uso as descobertas feitas quando da leitura. O gênero não é somente uma ferramenta para a comunicação, mas deve constituir, também, um objeto de aprendizagem para o aluno, se lhe forem dadas as condições adequadas.

Referências bibliográficas
CHARAUDEAU, Patrick. Grammaire du sens et de l’expression. Paris: Hachette, 1992.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. “Gêneros textuais: definição e funcionalidade”. In: DIONISIO, Angela e outros (org). Gêneros textuais e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002, p.19-36.
PERELMAN, Chaïm. Tratado da argumentação. São Paulo: Martins Fontes, 1996.


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

                                            

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A poesia lírica de Gregório de Matos



Barroco - A poesia lírica de Gregório de Matos
Odete Antunes (Profª Odete)

A poesia lírica de Gregório de Matos pode ser dividida em lírica sacra, lírica amorosa (espiritual e carnal), lírica encomiástica (poemas de circunstância, poemas laudatórios) e lírica filosófica. Analisemos, uma a uma, a poesia lírica desse autor barroco:

1. Poesia lírica sacra - A culpa e o arrependimento

Expressa a cosmovisão barroca: a insignificância do homem perante Deus, a consciência nítida do pecado e a busca do perdão. Ao lado de momentos de verdadeiro arrependimento, muitas vezes o tema religioso é utilizado como simples pretexto para o exercício poético, desenvolvendo engenhosos jogos de imagens e conceitos.

As idéias de Deus e do pecado, ao mesmo tempo que se opõem, são complementares. Embora Deus detenha o poder da condenação da alma, está sempre disposto ao perdão, por sua misericórdia e bondade; daí deriva Sua maior glória.

A CRISTO N. S. CRUCIFICADO, estando o poeta na última hora de sua vida

Meu Deus, que estais pendente de um madeiro,
2 Em cuja lei protesto de viver,
3 Em cuja santa lei hei de morrer,
4 Animoso, constante, firme e inteiro:

Neste lance, por ser o derradeiro,
6 Pois vejo a minha vida anoitecer;
7 É, meu Jesus, a hora de se ver
8 A brandura de um Pai, manso Cordeiro.

9 Mui grande é o vosso amor e o meu delito;

10 Porém pode ter fim todo o pecar,
11 E não o vosso amor que é infinito.

12 Esta razão me obriga a confiar,
13 Que, por mais que pequei, neste conflito
14 Espero em vosso amor de me salvar.

Nas duas primeiras estrofes, o poeta expressa a contrição religiosa e a crença no amor infinito de Cristo, para manifestar, no final, a certeza do perdão. O soneto encobre uma formulação silogística, que se pode expressar dessa maneira: o amor de Cristo é infinito (verso 11); o meu pecado, por maior que seja, é finito, e menor que o amor de Jesus (versos 9 e 10). Logo, por maior que seja o meu pecado, eu espero salvar-me (versos 13 e 14).

BUSCANDO A CRISTO

A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos,
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.
5 A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

9 A vós, pregados pés, por não deixar-me,
10 A vós, sangue vertido, para ungir-me,
11 A vós, cabeça baixa p ‘ra chamar-me.

12 A vós, lado patente, quero unir-me,
13 A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
14 Para ficar unido, atado e firme.

O soneto é construído a partir de um sistema de metonímias que vão relacionando as partes de Cristo ("braços", "olhos", "pés", "sangue", "cabeça", "cravos"), substituindo todo o Cristo crucificado.

Os versos 5, 9, 10, 11, 12 e 13 constroem-se com a omissão do verbo, que aparecera no 1º verso - "correndo vou”. Em todos eles ocorre o procedimento estilístico denominado zeugma (= elipse de uma palavra ou expressão próxima no contexto). Assim, nos versos -mencionados, deve-se ler:

"A vós (correndo vou), divinos olhos (...)"

"A vós (correndo vou), pregados pés (... )" etc.

Outro recurso empregado são as anáforas (repetição de palavra(s) no início de dois ou mais versos). Observe a repetição de “a vós” (v. 5, 9, 10, 11, 12, 13), e de "e por não" (v. 4 e 8).

Enquanto no texto anterior o jogo de idéias é predominante (aspecto conceptista), neste, o mais evidente é o trabalho com as palavras, por meio das figuras de linguagem (aspecto cultista).

Observe que o mesmo poeta contrito dos textos sacros é autor de sátiras violentas ao clero:

A nossa Sé da Bahia,
com ser um mapa de festas,
é um presepe de bestas,
se não for estrebaria:
Várias bestas cada dia.

Ou:

E nos frades há manqueiras ?...Freiras.
Em que ocupam os serões?... Sermões.
Não se ocupam em disputas?... Putas.

Com palavras dissolutas
Me concluís, na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões e putas.


2. Poesia lírica amorosa - O espírito e a carne

Apresenta-se sob o signo da dualidade barroca, oscilando entre a atitude contemplativa, o amor elevado, à maneira dos sonetos de Camões, e a obscenidade, o carnalismo. É curioso que a postura platônica é dominante, quando o poeta se refere a mulheres brancas, de condição social superior, e a libido agressiva, o erotismo e o desbocamento são as tônicas, quando o poeta se inspira nas mulheres de condição social inferior, especialmente as mulatas. Neste sentido, destaca-se já certa “tropicalidade”, a antecipação de certo “sentimento brasileiro”.

Minha rica mulatinha, 
desvelo e cuidado meu, 
eu já fora todo teu, 
e tu foras toda minha;

Juro-te, minha vidinha, 
se acaso minha qués ser,
que todo me hei de acender 
em ser teu amante fino pois 
por ti já perco o tino, 
e ando para morrer.

Observe os versos curtos e a aproximação com uma linguagem mais espontânea e popular. A mulher é vista tanto de modo espiritualizado, quanto como objeto de desejo carnal. Ambas as visões podem aparecer no mesmo texto, estabelecendo um conflito, conforma ocorre no soneto transcrito a seguir, Anjo no nome, Angélica na cara, onde também encontra-se a atitude idealizante e a linguagem mais erudita:

A D. ÂNGELA

Anjo no nome, Angélica na cara! 
Isso é ser flor e Anjo juntamente:
Ser Angélica flor e Anjo florente,
Em quem, senão em vós, se uniformara?
Quem vira uma tal flor que a não cortara
De verde pé, da rama florescente;
E quem um Anjo vira tão luzente
Que por seu Deus o não idolatrara?

Se pois como Anjo sois dos meus altares, 
Fôreis o meu Custódio e a minha guarda, 
Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que por bela, e por galharda, 
Posto que os Anjos nunca dão pesares, 
Sois Anjo que me tenta, e não me guarda.

O soneto marca-se pelo aspecto cultista, desenvolvendo-se por meio do jogo de palavras e imagens: “Ângela” = “Angélica” = “Anjo”, “flor” = “florente”.

O tema central é o caráter contraditório dos sentimentos do poeta pela mulher, que é simultaneamente flor (metáfora da beleza) e objeto do desejo, e anjo (metáfora da pureza) e símbolo da elevação espiritual.

A contradição entre o amar e o querer desemboca no paradoxo dos versos finais: “Sois Anjo que me tenta e não me guarda.”

O tema clássico do carpe diem (= aproveita o dia) é freqüente. A consciência da fugacidade do tempo e das incertezas da vida leva à necessidade de fruição imediata dos prazeres.

É o que se nota em:
Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora,
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e boca, o Sol e o dia:

Enquanto com gentil descortesia,
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança brilhadora,
Quando vem passear-te pela fria...

Goza, goza da flor da mocidade, 
Que o tempo trata a toda a ligeireza, 
E imprime em toda a flor sua pisada.
Oh não aguardes que a madura idade 
Te converta essa flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

Os textos que iremos transcrever demonstram cabalmente o conflito carne x espírito, mediante duas definições do amor.

O Amor é finalmente 
um embaraço de pernas, 
uma união de barrigas, 
um breve tremor de artérias.

Uma confusão de bocas, 
uma batalha de veias,
um rebuliço de ancas; 
quem diz outra coisa, é besta.
Ardor em firme coração nascido;
Pranto por belos olhos derramado;
Incêndio em mares de água disfarçado;
Rio de neve em fogo convertido:

Tu, que em um peito abrasas escondido;
Tu, que em um rosto corres desatado;
Quando fogo, em cristais aprisionado;
Quando cristal, em chamas derretido.

3. Poesia lírica encomiástica

Gregório de Matos escreveu também poemas laudatórios (de elogio), de circunstância (festas, homenagens, fatos corriqueiros). Um exemplo curioso é o poema cujo inicio transcrevemos, uma homenagem ao desembargador Belchior da Cunha Brochado.

O elemento lúdico (= de jogo) do Barroco é a marca predominante do texto. Cada par de versos tem em comum as terminações das palavras (ex.: 1ª palavra do 1º verso: douTO; 1ª palavra do 2ª verso: reTO), o que explica o estranho arranjo espacial do texto. A leitura deve ser feita como se se tratasse de versos comuns; assim sendo, os dois primeiros versos lêem-se:
Douto, prudente, nobre, humano, afável, 


Reto, ciente, benigno e aprazível